Não é só a surubinha de leve

by - quarta-feira, janeiro 17, 2018

"Pega a visão pega a visão
Ran ran ran ran ran ran ran ran
(Quele Quele pique ó)
Ran ran ran ran ran ran ran ran ran ran ran ran ra
É o Celminho que tá mandando anda chama
É o Diguinho que tá mandando anda chama
Pode vim sem dinheiro
Mais traz uma piranha
Pode vim sem dinheiro
Mais traz uma piranha
Brota e convoca as puta Brota e convoca as puta
Mais tarde tem fervo
Hoje vai rolar suruba
surubinha de leve
Surubinha de leve com essas filha da puta Taca bebida depois taca pika
E abandona na rua "





Essa é a letra de um funk que tem circulado e causado uma grande polêmica.
Deixo bem claro que assim como uma grande massa, não tenho nada contra o funk, já rebolei muito, e demorei muitos anos pra prestar atenção nas letras, porque o importava mesmo era a batida.
De uns tempos pra cá, tenho sido mais seletiva com as músicas que ouço e que consequentemente dou de opção para minha filha ouvir.
Hoje recebi uma petição no whatsapp, pra que essa música seja retirada do Spotify, que hoje é um dos maiores streaming de música no mundo.
Assinei sim a petição, porque claramente se trata de uma letra machista, que faz apologia ao estupro de vulnerável, e principalmente que é degradante para nós mulheres.
Mas vou explicar o porquê sou contra esse tipo de letra, mas antes vamos fazer um parênteses.
O texto vai ser grande, segura!
Geralmente, o gênero FUNK, é muito mais criticado e alvo de polêmica como essa. E o motivo é simples e óbvio.
O funk é um ritmo das favelas, das comunidades, um ritmo marginalizado, gerando um preconceito estrutural. O objetivo dessas músicas é entreter, então o foco são as batidas e as mixagens, sem compromisso com a letra, com ter alguma moral da história, ou ter alguma grande lição a ser transmitida. É um tipo de música pra se dançar.
Salvo isso, seguimos com a problematização (risos).
Porém, mesmo tendo a função de entretenimento, não podemos isentar a influência que essas músicas tem na nossa vida, comportamento, etc.
E letras como essa nos mostram que, nós mulheres, não estamos seguras.
Que não podemos ter vontade, não podemos nos divertir livremente, beber, sair, porque a qualquer momento alguém se achará no direito de nós violar por isso. Violar nosso corpo, nosso espaço, nossa liberdade.
E ainda há quem pergunte por que o feminismo é necessário. E aí está um belo exemplo.
Uma letra de música que cita claramente que embebedar uma garota, fazer sexo com ela, que estando na condição de alcoolizada se torna vulnerável e incapaz de decisão caracterizando aí já estupro, e depois abandonar na rua, é inadimissivel, é desrespeitoso, é um crime declarado.
E quando eu vejo as pessoas defendendo esse tipo de letra, com base na lei de expressão artística, me incomoda, simplesmente por ser relato de um crime de abuso.
Me entristece ainda mais quando uma mulher parte na defesa desse tipo de letra, porque ela é vítima, é o alvo de quem reproduz esse discurso.
Mas levantemos também a questão de que esse tipo de letra não está presente apenas no funk.
Separei algumas músicas, variando os gêneros musicais, pra que vocês entendam que, condenar o que é já é marginalizado é fácil. Mas é necessário também não consumir ou apontar aqueles outros ritmos que são mais elitizados.
A lista é enorme, e foi bem difícil escolher, porque além de abusos declarados, há várias declarações PEDÓFILAS em letras que são hits.
1- MPB
"Já Já (Se essa mulher fosse minha)" - Sinhô - 1926
Se essa mulher fosse minha eu tirava do samba já já / Dava uma surra nela que ela gritava chega, chega, ó meu amor..."
2- Samba/ Pagode
"Se eu largar o freio - Péricles
A pia tá cheia de louça / O banheiro parece que é de botequim / A roupa toda amarrotada / E você nem parece que gosta de mim / A casa tá desarrumada / E nem uma vassoura tu passa no chão / Meus dedos estão se colando / De tanta gordura que tem no fogão / Se eu largar o freio / Você não vai me ver mais / Se eu largar o freio / Vai ver do que sou capaz..."
3- Rock
"Silvia piranha- Camisa de Vênus
Vive dizendo que me tem carinho / Mas eu vi você com a mão no pau do vizinho / Ô Silvia, piranha! / Todo homem que sabe o que quer / Pega o pau pra bater na mulher..."
4- Sertanejo
"Bruto, rústico e sistemático- João Carreiro e Capataz
Fez um tar de topless / Quando vi me deu um stress / Perdi minha paciência / Por mim faltaram respeito / Na muié eu dei um jeito / Corretivo do meu modo / No quarto deixei trancada / Quinze dias aprisionada..."
5- Rap
"Mulheres Vulgares- Racionais
Fique esperto com o mundo e atento com tudo e com nada / Mulheres só querem / preferem o que as favorecem / Dinheiro e posse, te esquecem se não os tiverem..."
6- Pop
" Amiga da minha mulher- Seu Jorge
“Se fosse mulher feia tava tudo certo/ Mulher bonita mexe com meu coração/ Se fosse mulher feia tava tudo certo/ Mulher bonita mexe com meu coração”
Esses são apenas alguns exemplos de como o machismo e o abuso estão tão penetrados na nossa socialização, que passam despercebidos.
Gêneros musicais não são machistas ou abusivos.
Mas as pessoas que escrevem, produzem e reproduzem essas letras sim, estas são as grandes responsáveis pela famigerada cultura do estupro e do abuso, da sexualização da mulher.
E não acontece só aqui. As músicas internacionais também, como Animals do Maroon five, Hot line bling do Drake, Shake that do Eminem, a lista é interminável.
Precisamos ser mais seletivas com o que vemos, ouvimos, compramos, produzimos se queremos alguma mudança.
Não adianta pegar um gênero que por si já é marginalizado por conta da origem periférica.
Ah, e MC Diguinho, dizer que você canta o que vive é ainda mais problemático, você está afirmando que é um estuprador de mulheres em situação de risco e vulnerabilidade.
        Sejamos menos hipócritas 

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