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nós por nós

Um diário compartilhado entre duas irmãs


Eu tenho pensado muito em tudo que mudou na minha vida depois que conheci o verdeiro significado do feminismo, e o quanto eu o ignorei ao longo da minha vida. Eu tenho pensado em todas as coisas que já fiz e que já me submeti antes de entender o que era escolha, o que era imposição, e o que foi abuso.
Eu tive uma infância boa. Cheia de fantasias, de diversão e zero responsabilidades.
Tive uma adolescência sem grandes conflitos familiares, sem grandes questionamentos sobre as mudanças, uma liberdade saudável, uma criação aberta, onde nenhum assunto foi tabu pra ser discutido, mesmo hoje não concordando com parte do modo com que os assuntos foram abordados.
Mas hoje me peguei pensando, pra ser bem honesta, passei a noite pensando na forma com que conduzi minhas relações ao longo desses anos.

A rivalidade feminina sempre foi incentivada, o instinto maternal e a dona de casa prendada eram pautas diárias. A ideia de responsabilidade sobre a vida dos meus parceiros futuros também. Um padrão de beleza veio no kit.

Lembro exatamente de aos 12 anos fazer dieta pra não cair na tendência familiar genética de ser gorda. E lembro das minhas primeiras experiências amorosas.
Meu primeiro beijo foi uma mentira contada por um garoto, mentira que ele me fez acreditar e confirmar, aos 9 anos. E eu achava ok, porque gostava daquele menino. Meu primeiro namorado.

Aos 12/13 anos namorei um cara aparentemente torto, mais velho, ele já devia ter uns 18 anos. Ficava com outras meninas, mas me convencia que isso era o que os caras faziam, mas que ele podia mudar um dia. Ia depender de mim.
Aos 13 anos, mais um cara mais velho, que veio com um mundo de promessas, de namoro com permissão dos pais, de futuro, um cara com mais ou menos a idade do meu irmão mais velho, uns 22 anos. Minha mãe foi até a delegacia, pediu medida protetiva, acusou de pedofilia, e eu não entendia porque era errado.

Esses foram os casos mais relevantes, mas houveram vários outros paqueras, que me negligenciaram, ou tentaram tirar alguma vantagem de mim, sempre alegando ser o que os caras faziam. Sempre me pressionando. Usando a máxima de "fulana faria isso", incitando o ódio a outras mulheres, a competição.

Nas amizades a mesma coisa. Eu queria ser aceita. Mentia, me virava em 10 pra ser boa em tudo, ser bonita, ser agradável, ser madura. Tudo isso antes dos 15 anos.

E quando chegou meus 15 anos conheci uma pessoa legal. Mas quis esconder pq ele não era o meu padrão. No fim cedi a pressão da minha família, assumi o relacionamento, e aí começou a minha saga com o relacionamento abusivo. E eu era o abusador.
Extremamente controladora, manipuladora, autoritária, infiel e mentirosa. Essas eram as maiores qualidades.

Destruí essa relação e as pessoas envolvidas, por mais vezes que posso me lembrar. Foram anos. E ensinei a prática a pessoa. E o abuso e descaso começou a ser mútuo. E veio a separação. No meio dessa turbulenta relação, veio minha filha e por ela, decidi dar um tempo.

E foi aí que conheci verdadeiramente o feminismo. Que passei a entender sobre a minha insegurança, minha baixa estima, minhas crises de ansiedade.
Comecei a entender as minhas atitudes nada saudáveis. E mergulhei em mim, pra me descobrir e me moldar, me tornar melhor pra eu mesma, e menos destrutiva aos outros.

Foram quase quatro anos de muita mas muita cara quebrada, muitos nãos, muitos relacionamentos ruins e relâmpagos, até que eu entendesse que eu me bastava.

O feminismo me libertou da corrida contra outras mulheres, contra abuso psicológico, me libertou das amarras dos padrões e dietas mirabolantes, me libertou de uma dependência emocional e de procurar aprovação de uma mãe narcisista.

O feminismo me mostrou força interior, capacidade de pensar e agir por  mim, me tirou da bolha e da neura de pensar na sociedade e sua aprovação ridícula. O feminismo foi um divisor de águas. Mudou minha relação com a minha filha, com as mulheres do mundo e com meu parceiro.

Mas essa liberdade, amor próprio, desprendimento veio com varios pesos.
A não compreensão e respeito de outras pessoas com ideiais e pensamentos contrários, a falta de empatia de outras mulheres que decidirão não concordar com o movimento, o ataque constante de homens criando situações pra minimizar essa luta e causa, e minha prisão interna, que agora me faz questionar até onde sou permissiva com fatos, pessoas e cultura.

Mas mesmo tendo esses conflitos internos com filmes, novelas, gostos pessoais, letras de músicas, séries, amigos, família, se me perguntassem eu não mudaria em nada a minha história.
Eu tive que passar por situações difíceis pra ser forte como sou hoje. Tive que ser abusiva para deixar de ser. E tive que ser abusada pra não deixar ser.

O feminismo me proporcionou a escolha entre ser alguém melhor e agradável para os outros, ou ser o melhor de mim.
Eu escolhi a segunda opção e não me arrependo de ter escolhido a mim antes de qualquer coisa.

O texto que mais parece uma autobiografia é só parte de todo o lixo que a sociedade já me empurrou goela abaixo, e do quanto me conhecer e reconhecer como mulher e como indivíduo me fez amadurecer e me respeitar.

Ser feminista tirou vendas dos meus olhos, vendas que me impediram de me enxergar por anos, que deixaram marcas em que trouxeram alma pra esse meu corpo.
A melhor arma, ferramenta, poder, chame como quiser, de uma mulher é o autoconhecimento, o amor próprio.

Tenha- se em mãos e seja liberta e livre, dona da sua história.



*Este é um texto pessoal, colaborativo. Todas as personagens permanecem anônimas.*

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Hoje eu abri as redes sociais e me deparei com o seguinte titulo “Garota de 11 anos se mata por achar que não tem um corpo ideal” e infelizmente não me choquei por que eu já fui igual essa menina, eu já pensei em me matar por isso também...
Aos 10 anos eu já era neurótica com estereótipos físicos, eu ficava sem comer, tomava inúmeros remédios alguns com consentimento da minha mãe, outros escondidos. Eu me sentia ridícula, na escola algumas meninas batiam na minha barriga por que eu era gorda, os meninos zombavam de mim, musiquinhas do tipo “gorda, baleia, saco de areia” era comum, mas ninguém nunca notou o quanto isso me machucava, na verdade eu sempre me fiz de forte e nunca deixei as pessoas saberem que isso me matava aos poucos.
Eu fiquei doente varias vezes por vontade de comer e não poder por que estava na maldita dieta... Dieta dos pontos, do suco, da sopa, dieta detox, da lua, do sol, todas as que pode imaginar eu tentei e como sempre falhava, ficava semanas sem comer e na outra comia compulsivamente e isso fez com que eu ficasse num eterno efeito “sanfona”. Foi ai que entrei na academia, eu mal comia e passava cerca de 4 a 5 horas malhando, nesta época eu emagreci horrores e os elogios por ter emagrecido me “fortaleciam” para continuar nessa saga em busca da magreza.
Passei meus 20 anos tentando fazer dietas e tendo que lidar com comentários de que tinha engordado, de que eu era mais bonita magra, fui trocada por meninas mais magras (e ainda sou), sempre me sentia inferior perto das minhas amigas, descobri inúmeros problemas de saúde que me faziam engordar mais, eu chorava todos os dias pedindo para Deus me ajudar a ficar sem comer para eu poder finalmente ter o corpo maravilhoso das revistas, mas felizmente Deus não ouviu meus pedidos e eu agradeço por isso.
Faz um tempo que venho tentando amar meu corpo e aceitar meu biótipo, por que por mais que eu faça dietas eu nunca terei um físico magro. Não é fácil, todos os dias eu me pego tentando me auto sabotar, ficando sem comer para ver se fico mais magra em determinada roupa, mudando ângulo de fotos e editando para não aparecer imperfeições e quando isso acontece eu paro e tento me lembrar que esse corpo gordo é o que me acompanha a anos e que ele não merece mais sofrer, que minhas imperfeições fazem parte de quem sou, meu corpo merece ser liberto, ele merece ser amado. Cada curva, cada estria, cada centímetro do meu corpo é uma parte de toda minha historia e seria cruel demais abandonar tudo isso e tentar reescrever minha trajetória.
Eu ainda sou insegura com determinadas coisas do meu corpo, mas tudo é um processo de desconstrução. Quando passamos a ver representatividade, nós nos damos conta do quão incrível cada um é, e que seu corpo é sua historia e isso é a coisa mais linda que pode existir.
Independente da sua forma eu quero que saiba que você é incrível, seu corpo é maravilhoso e nele contém uma vida e uma trajetória surreal que deve ser compartilhada com o mundo todo. Lembre-se sempre, você não precisa ser bonita como ela, você pode ser bonita como você.
A beleza de alguém não anula a sua, somos pessoas incríveis em corpos maravilhosos. Liberte-se!

- Joyce Netto


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Pode ser lésbica, mas…
Pode ser lésbica, mas não precisa beijar em público,
Pode ser lésbica, mas não precisa expor relacionamento nas redes sociais,
Pode ser lésbica, mas não precisa se vestir igual homem,
Pode ser lésbica, mas será que eu posso ver vocês tendo relações?
Pode ser lésbica, mas não aqui de baixo do meu teto,
Pode ser lésbica, mas com certeza deve ser porque nenhum homem te pegou de “jeito”,
Pode ser lésbica, mas deve ser só uma fase,
Pode ser lésbica, mas saiba que vai pro inferno,
Pode ser lésbica, mas alguém está te influenciando,
Pode ser lésbica, mas quem é o homem da relação?
Pode ser lésbica, mas você é tão bonita, nem parece…
Pode ser lésbica, mas não do meu lado e nem na minha família,
Pode ser lésbica, mas negue a si mesma e se relacione com um cara só pra satisfazer a
sociedade tradicional brasileira.


- Joyce Netto





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Mais um ano está chegando ao fim.
E não poderia deixar de vir agradecer tudo que aconteceu neste ano, todos os encontros e desencontros da vida, todas as dores e amores.
Junto com os agradecimentos, venho com notícias.
O nome do blog foi escolhido por mim e pela minha irmã Joyce. Make We, que em português significa Feito por nós, tinha como o objetivo inicial criar um blog colaborativo, com a participação efetiva dos nossos leitores.
Muita gente achava que era algo ligado à maquiagem, ou beleza, por eu ser maquiadora, mas não. Era porque tínhamos a intenção de criar algo pra todos.
E foi no ramo da beleza que começamos. Fomos crescendo, e esse ramo já não contemplava nossa realidade, nem a preenchia o vazio que existia em nós. A necessidade de ajudar pessoas e compartilhar experiências nos fez por várias vezes abandonar o blog.
Mas algo ainda crescia, uma vontade de falar de sentimentos, de angústias, de pegar na mão de pessoas que estejam ou estavam passando por algo e dizer que elas não estavam sozinhas nos motivou a começar a escrever sobre experiências.
As crises de ansiedade e pânico nos levaram a perceber que poderíamos confortar pessoas que passam pelo mesmo e juntos sermos mais fortes.
Nessa minha caminhada contra a ansiedade nunca me senti tão amparada e amada como nesse ano de 2017.
Um ano em que as minhas crises se intensificaram e que descobri que minha irmã sofria do mesmo mal.
Irmã essa que tem sido meu alicerce, e eu o dela. E temos tentando sobreviver à esse misto de emoções desencontradas dia após dia.
E dessa luta, surgiu uma frase que ela sempre me diz, exatamente a frase que explica essa fase e que nos motiva a seguir.
E com todas as mudanças decidimos mudar o nome do blog.
Correndo sim o risco de perder toda a identidade visual que já criamos e sustentamos desde 2010, quando foi lançado nosso primeiro post, decidimos que o blog terá um nome, um novo segmento.
Continuaremos a falar de autoestima, comportamento, saúde mental, experiências pessoais, beleza, feminismo, mas de um jeito talvez mais profundo, intenso e pessoal.
Agradecemos a todos que estiveram conosco nesses 7 anos de existência. E aos que ainda estarão nos anos que venham a seguir.
Dentro de poucas semanas, o blog deixa de ser Make We e passa a ser Nós por nós ❤
Somos gratas por tudo que tem acontecido, seja bom ou não, porque nós tornou quem somos hoje. E já não lembramos como éramos porque o que somos é o que sempre quisemos ser. Por enquanto.
A vida é um moinho.
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AVISO - GATILHOS

Aqui expusemos nossas dores para que você saiba que não está só, esse blog é feito de relatos que podem ser gatilho para algumas pessoas, por isso pedimos que se estiver passando por algum problema, procure ajuda de um profissional.

DESIRRE

32 anos, Ariana, feminista, problematizadora, saúde mental abalada. Apaixonada por maquiagem e mãe de uma garota incrível e de 3 pets mimados. Espírito livre porém nem tanto.

JOY


23 anos, leonina, confeiteira e design gráfico nas horas vagas. Impaciente e gado da minha namorada.

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