Tecnologia do Blogger.

nós por nós

Um diário compartilhado entre duas irmãs


Eu perdi meu pai. 
Desculpa começar com esse soco no estomago, mas são palavras que eu precisava muito vomitar. 
Mas eu perdi meu pai muito antes da morte dele. 
Eu perdi meu pai 2x. 
Como parte da minha terapia, escrever me foi sugerido para aprender a lidar com as minhas emoções. E agora mesmo,jogando tetris entre uma olhada e outra no instagram, me desceu uma lágrima de saudade. 
A primeira vez que perdi meu pai, foi o biológico. Ele terminou o relacionamento com a minha mãe e com a gente,os filhos. Prometia inúmeras vezes passeios, ou visitas. E cada vez que ele não vinha, ele morria. Até quando de fato, todo o pingo de sentimento de fato morreu. O amor e qualquer outro sentimento morreu. 
Mas eu ja tinha um pai de verdade, de coração, de alma nesse período. 
Minha mãe se casou com um dos homens mais honrosos que já conheci. Ele me ensinou a ser esperta, a ser inteligente, a desconfiar, a me impor, a trabalhar, a ser forte. 
Mesmo não sendo carinhoso, ou fácil de lidar, ele demonstrava amor, a nós, filhos de outro homem. Nos amou e trabalhou mais que qualquer outra pessoa para nos dar o mínimo mas muito conforto. Ele tinha suas cobranças, seus momentos de explosão, mas eu me recordo de ver ele chorando escondido quando não tinha como presentear a todos no natal, ou na pascoa. 
Ele se deixou levar por isso. E como a gente ia crescendo, as necessidades aumentavam, ele passou a trabalhar tanto, que quase não o víamos, começou a perder os almoços de domingo, as ceias de natal, os pequenos bolos de aniversários. 
Sempre preocupado com as contas, com a comida, tentando dar certo na vida. 
Se descobriu diabético e decidiu que ia ignorar a doença, queria viver. 
Aos poucos a doença foi tirando sua energia, e a falta de autocuidado tbm. 
Ele foi envelhecendo, ainda pensando em trabalhar, ainda querendo ser o mesmo. A doença se manifestava e seu corpo pedia cuidado, pedia socorro.
Ele se recusava a aceitar diminuir o ritmo, recusava se tratar. E ai a gente começou a perder. 
Eu surtei internamente. 
Me doía ver ele acamado, um homem que sempre foi ativo, nunca teve preguiça, ali deitado 24 hrs. 
Me doía ser impotente. 
Minha cabeça não aguentou. Grande parte do que será escrito aqui nunca foi dito.
Mas juntou o termino de um relacionamento ruim, com a situação do meu pai,meu desemprego, meu desempenho ruim na faculdade, e tudo explodiu. 
Eu não consegui pedir ajuda. 
Não consegui contar pra ninguém que eu queria morrer e só não morri pq eu tinha medo do que isso faria com a cabeça da minha filha e da minha família. 
Eu parei de cuidar da minha casa, e de mim. E da minha filha e dos meus gatos. 
Minha filha foi para a casa da minha mãe pela proximidade da escola e ali foi com ela o resto de vontade de viver. Eu me senti a pior das mães, e mesmo depois de 5 meses quase 6, que ela esta lá, mesmo vendo ela todos os dias, ainda me sinto inútil. Mas aceitei que foi melhor. 
Foi melhor pq hoje ela só vê o melhor de mim. 
E todos que me conhecem. Desculpem. 
Vocês só veem o personagem que criei. Que tudo suporta, que supera, que não se magoa, que é forte. 
Mas a verdade é que estou destruída. Não existe um só pedaço de mim inteira. 
E tem sido difícil me refazer.
Eu me sinto fraca. Impotente. Inútil.
Eu sei das minhas capacidades, talentos, sei do meu potencial. Mas eu não sei se quero continuar. 
Estou apenas sendo empurrada aqui nesta vida. 
Estou só existindo. Indo onde me levam. 
As vezes tenho alguns segundos de lucidez e me bate uma vontade imensa de viver,outras horas eu perco total a energia e fico vazia. 
E parte de estar assim é pq eu desejo fazer muito, de coração. Eu queria ajudar as pessoas, eu queria mudar o mundo, queria abrir os olhos das pessoas, mas além de muita arrogância de minha parte em achar que eu sei o que é o certo, ainda existe a pergunta: Como?
Eu sinto as coisas com muita intensidade e esse vazio tem sido intenso. 
Eu sinto um buraco. 
Uma fraqueza. 
Eu sei que estou assim pelas perdas dos últimos anos, pelos fracassos, pelos projetos não iniciados e pela cobrança que eu tenho comigo. 
Eu disse que não ia me permitir ser arrastada pelo sofrimento. E não tenho permitido. 
Mas eu tenho o entendimento de que não preciso ser una fortaleza o tempo todo. E hoje uma lembrança dele, meu pai, me fez desabar por 5 minutos. 
Talvez esse texto esteja confuso. Assim como a minha cabeça e minha vida estão agora. 
Talvez alguém esteja lendo e pensando que estou contando sua vida. 
Talvez alguém conhecido leia e me julgue. 
Não importa. 
Saiba que tudo que eu contei aqui são fragilidades que ficarão nesse texto. 
Estou tirando de mim esse vazio e ele morrerá aqui mesmo. 
Amanhã talvez eu acorde e faça ioga ou medite pra ter um dia melhor. 
Talvez eu durma até meio dia. 
Mas saiba que esse vazio, amanhã, não vai me acompanhar. 
E sobre meu pai eu conclui que ele viveu como queria, e foi embora quando a vida dele perdeu sentido pra ele. 
A gente que fica sofre mas se conforma. 
Dói. Mas a gente se conforma. 
E desculpa se você leu e achou que no fim ia ter uma grande lição ou um testemunho de superação do vazio e da dor. 
Juro que quando isso acontecer, se acontecer, eu escrevo pra contar. 
Por enquanto é só isso, ou tudo isso. 
Respira fundo. E fecha a página. 

Share
Tweet
Pin
Share
No comments
Newer Posts
Older Posts

AVISO - GATILHOS

Aqui expusemos nossas dores para que você saiba que não está só, esse blog é feito de relatos que podem ser gatilho para algumas pessoas, por isso pedimos que se estiver passando por algum problema, procure ajuda de um profissional.

DESIRRE

32 anos, Ariana, feminista, problematizadora, saúde mental abalada. Apaixonada por maquiagem e mãe de uma garota incrível e de 3 pets mimados. Espírito livre porém nem tanto.

JOY


23 anos, leonina, confeiteira e design gráfico nas horas vagas. Impaciente e gado da minha namorada.

Popular Posts

  • Anas e Mias: Como você se vê?
    O texto de hoje é um alerta, é uma chamada para a vida. É uma chamada única, chega de esperar e de não viver. Não estou aqui pra debater ...
  • Ansiedade
    Um café, um cafuné no gato. Vira pra lá, vira pra cá. O sono nao vem. Uma passada pelas redes sociais, nada. Vídeos, nada. Séries,...

Blog Archive

  • ►  2021 (3)
    • ►  agosto (3)
  • ▼  2020 (3)
    • ►  dezembro (2)
    • ▼  janeiro (1)
      • Perdas e desabafos
  • ►  2018 (17)
    • ►  dezembro (1)
    • ►  novembro (1)
    • ►  outubro (2)
    • ►  setembro (1)
    • ►  agosto (1)
    • ►  julho (2)
    • ►  junho (1)
    • ►  maio (4)
    • ►  abril (2)
    • ►  fevereiro (1)
    • ►  janeiro (1)
  • ►  2017 (27)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  novembro (2)
    • ►  setembro (4)
    • ►  agosto (2)
    • ►  junho (1)
    • ►  maio (4)
    • ►  abril (5)
    • ►  março (3)
    • ►  fevereiro (2)
  • ►  2016 (5)
    • ►  novembro (3)
    • ►  janeiro (2)
  • ►  2015 (7)
    • ►  dezembro (4)
    • ►  outubro (1)
    • ►  setembro (2)

Created with by ThemeXpose