Mallu não convida

by - quinta-feira, maio 25, 2017

Pouco falo sobre racismo, porque ainda é difícil me impor e ser aceita como pessoa negra. De pele mais clara, a famosa nascida branca, que apelidam de parda, mas negra.
E cada vez mais tenho consumido informações a respeito, minha ideia de racismo era superficial.
Sempre acreditei que racismo era aquela piada, brincadeira ou verdade ofensivas. Se não me ofender, não considero racismo. Um pensamento bem egoísta.
Passei a pensar no todo. Em toda história, luta, dor, que os negros sofreram ao longo dos anos. Tudo que foi tirado e que foi imposto apenas pela cor da pele.
E eis que no auge de muitas mudanças de conceito, de pensamento surge Malu.
Uma cantora que eu já tinha aquele pé atrás, mas que mantinha até uma simpatia.
No clipe da música Você não presta vemos uma mulher branca, padrão a frente.
No plano de fundo, dançarinos negros. Sem qualquer interação com a cantora, só ali, dançando e exibindo os corpos, fazendo movimentos que ao meu ver são características das danças dos terreiros, dança essa, também feita pela protagonista.
A letra, a melodia isoladas nada significam.
Mas quando você analisa o vídeo é o áudio juntos tem aquela impressão do bordão de todo racista encubado: "até tenho amigos negros", não convido você porque você não presta, gente que não aprecia a negritude não é bem vindo aqui.
Seria lindo, se não houvesse sinais claros de que os negros ali são adornos.
Como nas cenas em que ela aparece dentro de um baú de caminhão enquanto os negros vão seguindo o carro de bicicleta. Como no momento em que eles aparecem todos atrás de grades. Como no momento onde partes de seus corpos são focalizadas e sensualizadas.
Poderia ser inclusivo, pode não ter sido proposital mas não deixa de ser racista.
E fica aquela sensação de que este vídeo passou por tantas mãos e olhos e mais uma vez o negro é ignorado, ninguém percebeu que a edição, que o roteiro e todo o enredo desse clipe somado à letra da música soaria de péssimo tom.
Mirou na inclusão, na empatia forçada e errou feio.
Malu pode até não ser racista. Pode ter pensado que usar seu privilégio seria bom para a causa negra, mas... 
Não dessa forma.
Não nesse contexto.



Após a polêmica, Mallu se pronunciou. 

"Fico muito triste em saber que o clipe da música ‘Você não presta’ possa ter ofendido alguém. É muito decepcionante para mim que isso tenha acontecido. Gostaria de pedir desculpas a essas pessoas. Meu trabalho e minha mensagem têm sempre finalidade e ideais construtivos, nunca, de maneira nenhuma, destrutivos ou agressivos.
A arte é um território muito aberto e passível de diferentes interpretações e, por mais que tentemos expressar com precisão uma ideia, acontece de alguns significados, às vezes, fugirem do nosso controle.
Sei que o racismo ainda é, infelizmente, um problema estrutural e muito presente. Eu também o vejo, o rejeito e o combato.
Li cada uma das críticas, dos posts e comentários, e o debate me fez refletir muito sobre o tema. Entendo as interpretações que derivaram do clipe, mas gostaria de deixar claro minhas reais intenções.
A ideia era ter um clipe com excelentes dançarinos que despertassem nas pessoas a vontade de dançar, de se expressar. Foram convidados pela produtora e pelo diretor os bailarinos Bruno Cadinha, Aires d´Alva, Filipa Amaro, Xenos Palma, Stella Carvalho e Manuela Cabitango. Com a última, inclusive, tive a alegria de fazer aulas para me preparar para o vídeo.
É realmente uma tristeza enorme ter decepcionado algumas pessoas, mas ao mesmo tempo agradeço a todos por terem se expressado. E reitero o meu pedido de desculpa. É uma oportunidade de aprender.
Espero que, após este esclarecimento, seja aliviado deste espaço de conversa qualquer sentimento de ofensa ou injustiça, ficando os fundamentos nos quais tanto acredito: a dança, a arte e o convite à música.
MALLU"

E o que aprendemos com isso? 
Reconhecer seu erro, saber se desculpar, aprender e não anular a fala do outro, cuidar pra que não aconteça novamente. 
É isso amigos. 
Racismo é crime, e sobretudo coisa de gente pequena e burra. 

"Quem não tem sangue de preto na veia, tem nas mãos. " 



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